Artigo n’O Observador | Mulher XL desafia portuguesas a terem orgulho nos seus corpos grandes

Saiu hoje um artigo no Observador sobre a evolução da Moda Plus Size no nosso país. Recebemos o convite para colaborar com o artigo, o qual agradecemos. 🙂

“Acabou o tempo em que a moda para mulheres grandes se destinava a tapar-lhes o corpo e a aumentar-lhes a vergonha. Hoje o repto é “visto XL e sou bonita e feliz”. O novo site Mulher XL promete ajudar.

Vamos a factos: em março deste ano a conservadora Vogue americana colocou pela primeira vez uma modelo plus size na sua capa: Ashley Graham, a mais requisitada do momento. Na temporada de outono/inverno de 2016, as semanas da moda mais importantes fizeram desfilar 30 modelos que vestiam entre o XL e o XXXL, ano em que o setor plus size registou vendas na ordem dos 21,4 mil milhões de dólares (18,7 mil milhões de euros) e se tornou o nicho mais lucrativo da moda. No Reino Unido os tamanhos grandes representam já 12% do total das vendas e a área de negócio já vale cinco milhões de libras (5,5 milhões de euros). Victoria Beckham, Prabal Gurung e Nike fizeram as primeiras coleções para mulheres, adolescentes e crianças que vestem tamanhos grandes e, nas redes sociais, a hashtag #plussize teve 5,3 milhões de posts. É o momento de perguntar: foi quebrada a última fronteira da moda?

(foto do evento Verão Mulher XL)

Cláudia Silva, 27 anos, e Lane Ferreira, 31, estão desde 2009 neste processo revolucionário em curso: criaram o site Mulher XL para ajudar as portuguesas e brasileiras que vestem tamanhos grandes a encontrar roupas que valorizassem os seus corpos “que não fossem roupas para velhinhas ou sacos de batata”, explica Lane ao Observador. No próximo domingo, dia 2, lançam a plataforma online Mulher XL, que reúne marcas portuguesas e brasileiras de roupa plus size casual, praia e festa, com um desfile de moda na Casa da Boavista, no Porto.

Ainda é muito difícil em Portugal, especialmente no interior, na província, encontrar roupa acima do tamanho 42. Isso piora quando falamos de biquínis, fatos de banho e peças para festas. Por isso esta plataforma online pode ajudar pessoas de todo o lado a encontrarem e comprarem roupa adequada ao seu corpo, mas que não seja para o tapar e sim para o valorizar”, afirma Lane.

Para já a Mulher XL tem cinco marcas associadas (Manual da ModaBy Brazil, Laura StephanyMaggnifica e La Eleganza), mas a ideia é “expandir a plataforma e os serviços que oferecem como construção de um portfólio de fotografias, participação em desfiles de moda e aconselhamento”, diz Lane, brasileira, agora a viver no Porto e mentora deste projeto, que no passado domingo juntou na Costa da Caparica várias raparigas plus size numa ida à praia “sem vergonha nem culpa dos seus corpos”. (Verão Mulher XL)

“Big is beautiful”

Verão Mulher XL – evento organizado por Mulher XL & fotografia de Luís Nunes

Nunca como hoje a pressão sobre os corpos foi tão grande. Por um lado, exigem-se magros, ginasticados, definidos, tonificados, jovens. Por outro, lançam-se no mercado toneladas de alimentos hiper-calóricos, convida-se à inércia dos corpos frente aos ecrãs de computador, televisão, smartphone. A publicidade promete a felicidade num pacote de batatas fritas e depois oferece um suplemento alimentar milagroso para emagrecer. No meio de tantas contradições, a realidade: 67% das mulheres americanas veste tamanhos grandes e, em 2016, do total de vendas de roupa a adolescentes, 34% foram plus size. Na Europa as mulheres curvy são também cada vez mais. Em 2011, um estudo realizado em Itália já identificava que 22% das europeias vestia o 42. Apesar disso, em 2010 a marca de moda Elena Miró foi retirada da semana oficial de moda de Milão porque, segundo o diretor do evento “não reunia as características que o pronto-a-vestir italiano quer mostrar ao mundo”. Leia-se: moda para corpos magros.

Este corte de relações entre a indústria da moda e os corpos grandes parece ter acabado perante a realidade dos factos: o corpo humano está a mudar, está a crescer e a maioria dos consumidores de moda já não veste o S. E se até as marcas de luxo estão a começar a incluir tamanhos grandes ou a fazer coleções especiais para este segmento é porque a moda inclusiva chegou finalmente às pessoas que não vestem segundo as regras. O designer Prabal Gurung dá a cara por esta luta e acusa mesmo a indústria da moda de ter uma “mentalidade fechada e de estar presa à ditadura dos fazedores de gosto”. Já a super magra Victoria Beckham afirmou “que o desafio de fazer uma coleção para mulheres plus size lhe deu muita felicidade”.

As marcas de fast fashion já estão nesta corrida há alguns anos. A H&M, a Mango, a La Redoute, a Forever21, a Asos, mas também as mais caras como Elena Miró, Marina Rinaldi ou Adolfo Dominguez já oferecem em tamanhos grandes — do XL para cima — roupas, acessórios e até roupa desportiva. As modelos opulentas como Ashley Graham, Toccara Jones, Candice Huffine ou Tara Lynn fazem capas de revistas como a Elle, a Vogue e até a Sports Illustrated. E as irmãs Kardashian acabam com vários tabus: a proibição das mulheres com curvas usarem roupa justa, transparente, riscas, ou crop tops pertence agora ao passado.

A mensagem é clara: “Big is (the new) beautiful”. Isto significa que a moda plus size passou a ser também glamourosa, sexy e trendy. Gorda é um adjetivo fora de moda, não por ser politicamente incorreto, mas porque a beleza é um conceito cultural. E, efetivamente, durante milénios, desde a pré-histórica Vénus de Willendorf às Majas de Goya que a beleza estava nos corpos voluptuosos enquanto a magreza era associada à doença e à morte.

Quem não vê com bons olhos esta reviravolta são as entidades de saúde. A Organização Mundial de Saúde e as entidades médicas americanas e europeias acusam a indústria da moda de estar a “induzir à obesidade”. Porém, as marcas e os criadores lembram que os corpos magros também têm doenças associadas à má nutrição. Lane Ferreira, da Mulher XL, afirma: “Não estamos a apelar a corpos obesos, mas a corpos saudáveis. Há pessoas que são naturalmente grandes, e cuja saúde física e mental não passa por ter 45 quilos e vestir o 34. E elas têm o direito a querer vestir-se de forma elegante e bonita.”

A prova de que há uma “normalização” na forma como olhamos os corpos grandes é a marca Nordstrom, cujas novas lojas já não têm um sessão à parte para tamanhos plus size mas onde as roupas convivem alegremente em todos os tamanhos, do S ao XXXL.”

Obrigada, Observador!  🙂

Artigo original aqui.

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